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Dr. Arbex Filho

Dr. Arbex Filho

Com mais de 20 anos de atuação no mercado e com o benefício de ser filho de um dos maiores profissionais de odontologia dos anos 1970, dr. Arbex Filho colhe frutos do bom trabalho. “Pacientes retornam ao consultório com 40 anos de trabalho e afirmam que tudo continua perfeito”, comemora. Assíduo nas redes sociais, sobretudo no Instagram, o dentista coleciona mais de 50 mil seguidores, entre pacientes e outros profissionais que atentam para suas dicas e depoimentos consistentes. Aqui, ele conta da transição do gosto pela biologia até a dentística à polêmica questão do mercado inflado por profissionais formados por universidades pouco capacitadas.

Alysson Resende: Você sempre quis ser dentista?
Arbex Filho:
Hoje tenho 38 anos de formado, e é interessante, porque parecia que não tinha nenhuma vocação para a odontologia. Estava todo canalizado para essa área de biológicas, até que desisti e me formei dentista. Quando me formei, meu pai tinha 60 anos e ele nunca me falou a respeito da escolha profissional. A mesma coisa faço com a minha filha agora, que está morando em Vancouver, fez Cinema e está com um emprego superlegal.

AR: Seu pai? Como ele era no segmento? Ele te deu algum aconselhamento a respeito da carreira?
AF:
A única coisa que ele falou comigo à época foi: “Vá fazer Odontologia? Vá fazer em Diamantina”. Isso porque ele começou a fazer Nuva Fill (técnica usada para cimentação de dentes quebrados) meio sozinho, pois não havia nada sobre isso no mercado. Ele tinha um cliente que era banqueiro, o Gilberto Faria, falecido, e quando surgiu essa técnica era uma novidade tão grande na odontologia que ele fazia de graça. Era uma técnica supernova. Ele fez tanto sucesso que chegou a dar curso de graça em várias faculdades na época, ensinando outros professores.

AR: E como foi sua iniciação na odontologia? Finalmente contou com a ajuda de seu pai?
AF:
Nas férias, comecei a trabalhar com o meu pai. Há 40 anos, ele tinha três consultórios; e comecei a atender amigos e algumas outras pessoas. Em pouco tempo, comecei a atender na faculdade e alguns colegas. No último ano, fazia nos filhos dos professores e cheguei a atender os meus professores. Teve um acesso legal. Eu tinha aquela visão de estar fazendo algo diferente. Essa área estética vem desde quando me formei. Desde então, vim pra BH e comecei a trabalhar com o meu pai, aí tomei um rumo.

AR: E como foi desde então?
AF:
Montei meu primeiro consultório e comecei a ir para os Estados Unidos. Meu consultório era ali na Praça Sete. Fiquei nove anos ali e depois me mudei para a Praça Milton Campos. A minha clínica tem 20 anos, e trabalho com três, às vezes quatro atendentes. Hoje mesmo coloquei no Instagram um caso de 10 anos atrás, de uma cliente com bruxismo, que restaurei tudo em resina. Ela retornou agora e está tudo perfeito. Não fiz mais nada, só a manutenção necessária.

AR: Desde quando você se considera um profissional completo?
AF:
Foi depois que saí do meu pai que cresci realmente, que tive que tomar o meu rumo. Hoje, a gente sabe que é fundamental a pessoa ter uma especialização, mas é uma coisa que nunca tive na minha cabeça, porque quando quis aprender oclusão, em 1985, fui para Bauru, fiquei no consultório do dr. Valdir durante três anos. Então, essa foi a forma mais simplificada de aprender todos esses conceitos que uso hoje. Durante três anos, passava 15 dias lá e, ao invés de fazer um curso, ter um título, preferi aprender com uma pessoa que era uma grande referência, que era também clínico.

AR: E como o uso das mídias sociais influenciou em sua carreira?
AF:
A cada post meu surgem 800, 900 mil perguntas e mensagens. Faz um tempo que parei de dar cursos. Meus fins de semana são para mim. Viajo de duas em duas semanas para descansar e depois volto. Tudo começou porque vi o que estava acontecendo nas redes sociais. Então, comecei a mostrar outro lado, e isso reativou a minha carreira. Produzi informação consistente. O legado que o meu pai deixou foi muito grande, até fiz um post no aniversário dele de 97 anos, dizendo que muitas das dicas que dou aqui aprendi com ele. Ele trabalhou até os 90 anos, firme e forte.

AR: Como é ter um Instagram premiado duas vezes em seu segmento?
AF:
Tenho 60 anos e comecei a fazer isso há dois anos e meio. Encontrei uma forma minha de falar, de fazer. O impressionante é que, nessas duas eleições, fiquei entre muita gente que tinha muito mais seguidores. Quem vota é por gratidão, por ter ajudado eles nos consultórios. Paciente não vai entrar lá e votar, são os profissionais.

AR: Fale mais sobre o legado que seu pai deixou.
AF: Ele vivia no meu consultório e, com 78, 79 anos, me disse que não queria atender cliente particular, que não queria ter responsabilidade, mas não queria largar a profissão. Tinha vários trabalhos beneficentes. Às vezes, não tinha cliente de manhã e se sentava na sala de espera para ficar conversando com todo mundo que chegava.

AR: Da época do seu pai para hoje, o que mudou no público-alvo dos consultórios odontológicos?
AF:
Hoje existe uma grande demanda da população por tratamentos estéticos, bem independentes de classes. As pessoas fazem sacrifícios, saem de suas cidades, de seus países. Semana que vem mesmo vou atender um cliente da Austrália. Hoje, as pessoas procuram o dentista para isso, por isso minha clientela é muito mais mesclada do que na época do meu pai. Comecei atendendo clientes de alto nível, de muita exigência, que antigamente não pediam orçamento, era tudo mandado por carta, sem questionamentos. Sinto muito prazer nisso, até em atender uma pessoa que está se sacrificando para fazer um tratamento.

AR: Qual a sua opinião a respeito do grande número de dentistas formados hoje?
AF:
As coisas chegaram num ponto em que as faculdades viraram negócios, e o número de dentistas formados hoje no Brasil é absurdo. Saem com uma mão atrás e outra na frente e ali que vão começar a aprender. Chegam no mercado de trabalho totalmente crus. Muitas vezes, esses dentistas fazem um curso e, na outra semana, estão aplicando técnicas invasivas. É muito triste e pesado o que eu estou vendo. A pessoa tem de começar a aprender trabalhos conservadores antes.

AR: Você tem alguma história especial com algum paciente para dividir conosco?
AF:
Tenho várias, mas vou te contar uma. Havia uma menina de 11 anos que sofreu um bullying enorme, porque tinha “dentinhos de tubarão”, o apelido dela era “Tubarãozinho”, ainda mais porque coincidiu com aquela época que lançaram o filme Tubarão. Na época, eu era estudante e meu pai fez tudo em resina. Vi ele fazendo esse caso, reconstruindo tudo para a menina voltar para o convívio social. Você acredita que, depois de 40 anos, essa mulher foi parar no meu consultório? Ela mora em São Paulo, eu lembrei do caso e perguntei se ela veio para fazer um upgrade. “Não, estão perfeitos.” Claro que não estavam! Estavam amarelos; e os dentes traseiros, um pouco quebrados. É uma história marcante. Tiramos fotos, as meninas a atenderam e melhoraram algumas coisas.

AR: Fale mais sobre a Sociedade Brasileira de Odontologia e Estética (SBOE)?
AF:
A coisa principal da SBOE é que se trata de uma instituição sem fins lucrativos, que começou no fim da década de 1980 e início da de 1990, época em que a odontologia estética nos Estados Unidos estava bombando. Montaram o conceito, para trazer de volta os pacientes aos consultórios pelo viés estético. As facetas de Holywood, de porcelana, são dessa época. A gente tinha pouca informação e não tinha material, pois nossa economia era bastante fechada ainda e estávamos saindo do regime militar. Por isso, comecei a frequentar muitos congressos nos Estados Unidos. Sempre buscávamos as coisas sem pensar muito em intitulação. Nesses congressos, a equipe se conheceu, e decidimos que precisávamos ter uma associação daquele tipo no Brasil. Em 1994, fizemos nosso primeiro congresso, todos jovens. Chamamos 200 estrangeiros, sem estrutura nenhuma, foi uma loucura. Nesses anos todos, a associação lutou muito para sobreviver financeiramente. Em alguns anos, tivemos que colocar dinheiro para continuar existindo, e muita gente falava que estávamos aproveitando daquilo ali. Porém, na verdade, éramos todos dentistas bem-sucedidos em suas cidades. Hoje, a associação está com status.

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